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Redenção - Um Conto


                Nasci num domingo, às 11 da manhã, aparentemente para aproveitar o final de semana. Cheguei tarde, perdi a feijoada do sábado, a missa, e compliquei o almoço. Salvas as comemorações, não deixei muito espaço ou inspiração para o jantar. Já no dia seguinte, toca trabalhar, que a vida corre. Aquilo não me desceu bem. Ainda rumino as oportunidades perdidas por minha falta de pontualidade que já me premiaram com uma quantidade satisfatória de vexames.
                O aborrecimento final veio no aniversário de um querido amigo. Demorei tanto para chegar ao churrasco de celebração que quando liguei para avisar que estava à caminho, todos os amigos já estavam em suas respectivas casas. Passei a ansiosamente procurar uma oportunidade de redenção.
                Só que ansiedade é um bicho que não passa fome muito tempo e a minha, em particular, começou a se banquetear poucos meses depois, quando um outro grande amigo anunciou que ia casar. Marquei a data num calendário antigo, de mesa, só para poder olhar para aquele círculo vermelho em volta do número. Comprei o terno com três semanas de antecedência, me sentindo o conspícuo burguês num shopping, mas feliz com aquela roupa grafite, reluzente por confecção e imbuída da minha expectativa mesquinha e do meu brilhante apreço pelo noivo. Faltando duas semanas, fui buscá-lo na costureira que fez os ajustes. Sete dias até a data, que já passara de acusatória lembrança para assombração, escolhi sapato, meias, gravata e chapéu. Na quarta-feira fiz o trajéto até a igreja de táxi, para cronometrar o percurso.
                Na quinta saí tarde do trabalho e perdi o jantar em que foram distribuídos formalmente os convites. Mau-agouro, certamente, pensei eu, arremedo de Poe com minha gralha numerada à mesa da cozinha, bradando em vermelho vivo “Atrasará”. Tentei confirmar com os amigos local e data. Nada. Podem ter achado que eu queria carona. Era proposta arriscada, com risco de atraso grave, talvez aparecer só pra recepção. Aceitei o frio do silêncio deles como um desafio.
                Acordei cedo no sábado. Passei café, comprei pão e queijo, fiz um dejejum desgostoso, com aquele sol vermelho imóvel no calendário, me cegando. Pratiquei um pequeno discurso, algumas palavras de encorajamento e declarações de amizade ao novo casal. Pratiquei outro, engraçado e desafiador, dedicado àqueles presentes que duvidavam da minha chegada pontual. Pulei o almoço, com a barriga cheia de prenúncios de desastres. Duas da tarde, comecei a me arrumar. Terno é fácil, cai bem no corpo (santa costureira!), mas a gravata teima. Entorta, fica curta, faz nó pequeno, faz tremer a mão, faz crescer o ódio, vai parar na cadeira, de castigo para pensar na malcriação que anda fazendo, retorna ao pescoço, se ajeita, se conforma e finalmente fica tão boa quanto poderia ficar e não falemos mais dela.
                Chega o táxi, informo o destino, saco o celular e me desato a mandar mensagens para os amigos. Já estou a caminho. Vejo todos vocês lá. Guardo lugar. Ahuahua. Disparo a mensagem para uns 9 mais chegados. Releio. Pondero se não exagerei (certamente exagerei, mas e daí? Posso me vangloriar no limiar de renascer para uma nova existência), quando o taxista avisa que chegamos. Mas não chegamos! Igreja errada! Estamos no Largo da Batata e a igreja certa é no Brooklyn! Salto fora do táxi (vigarista!) e entro em outro. Estava chegando cedo aqui, mas agora tenho que atravessar a cidade. Tem que dar tempo! Depois de tanto preparo, tem que dar tempo! E dá! Saio do táxi faltando dois minutos para as 19 horas, hora da cerimônia. Mas a igreja está não apenas vazia, está apagada. Deus amado, é um pesadelo. O MEU pesadelo. Errei a hora e cheguei tão atrasado que perdi o casamento. Agora tenho que correr para a recepção, pagar esse mico, engolir minhas palavras. Depois de horas, passo a mão no celular e vejo que há mensagens não lidas. São os amigos dizendo “Seu louco! O casamento é amanhã!”.

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