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| Não se distraia com o número de pessoas na foto |
Então
não é nada surpreendente que quando um grupo chamado de Aliança Mundia de
Cientistas (World Scientists Alliance – um nome de equipe de super
heróis que poderia muito bem ter pingado da ponta da caneta de Stan Lee em 1963)
decide reafirmar um estudo de 1992 que previu que, até o ano de
2100, as catástrofes causadas pelo aquecimento global levarão à uma extinção em
massa que consumiria entre 50 e 75% das espécies animais do planeta, os nossos
cérebros queiram coletivamente abandonar seus postos e ir fumar um cigarro. E é
só olhar para três reportagens, publicadas pelo The Independent, Vice e CNN para
ver que essa obsessão com dados numéricos é o standard jornalístico. Em todas,
pelo menos três número aparecem nos primeiros dois parágrafos da história.
São
números grandes. Os três veículos acharam importante dizer que os signatários
do novo aviso são 1500 cientistas de 184 países logo nos primeiros parágrafos.
De alguma forma também incluíram a informação que, em 82 anos, entre 4,3
bilhões e 6,5 bilhões das 8,7 bilhões de espécies animais do planeta terão
desaparecido ou estarão em curso de desaparecer. É a notícia é assustadora.
Isso vai acontecer. A menos que nós façamos alguma coisa para reverter o processo.
“Que nós façamos”? Isso me inclui? De jeito nenhum, não pode ser. Em 82 anos eu
vou ter morrido. E eu nem tenho cachorro, não sei nada de animais, mas nunca
machuquei nenhum. Que responsabilidade tenho eu?
A
nossa responsabilidade é muito clara se, em vez de ficarmos estarrecidos com
números e fatos, ou presos a remotas datas, conseguirmos analisar o contexto.
E, infelizmente, isso é um papel que o jornalista reluta em ocupar. O quê é a
causa do problema? Os cientístas apontaram para três fatores principais, e é
neles que podemos pensar em fazer a diferença, pois eles estão mais próximos de
nós do quê as suas catastróficas futuras ramificações.
Primeiro
e mais importante motivo do aquecimento global é a emissão de Gases de Efeito
Estufa, o CO2 e o CO. E você, leitor bem informado, já deve ter ouvido muito
por aí que isso é problema de Norte-Americanos e Chineses. A produção
industrial do país asiático e o consumo desenfreado de combustíveis fósseis dos
Estados Unidos estão sempre nos jornais. Mas o Brasil não está tão longe deles
nesse quesito. É o 11º maior emissor de gás carbônico do mundo. Por quê? Temos
um parque industrial relevante, uma vasta deficiência em transportes públicos e
uso de combustíveis renováveis, e temos uma hipertrofia do setor agrícola.
Segundo,
o desflorestamento. A derrubada de árvores no Brasil só perde para a devastação
da tundra Russa em quantidades totais. O hábito da mídia tradicional de igualar
os espaços perdidos por florestas com campos de futebol dá, ao mesmo tempo, uma
dimensão palpável da destruição de nossos recursos naturais e um ar quase
lúdico e simpático ao processo. É quase como dimensionar a dívida
pública com cupcakes. Pode até me dar uma dimensão, mas também está
subtraindo da seriedade e urgência do problema.
Terceiro,
a agropecuária. E, aqui, não há espaço para piadinhas. A bancada ruralista, do
agronegócio, do boi, é a quarta mais poderosa do país. A carne bovina foi o
maior produto de exportação do Brasil em 2015 e 2016. De acordo com o IBGE, a
agropecuária é a principal ocupação em mais de 57% dos municípios brasileiros.
Alguns dos homens mais ricos, alguns dos políticos mais poderosos no Brasil são
donos de fazendas de gado. Gado que exige vastidões de gramados, centenas de
litros de água, e devolve ao ambiente dejetos e gás metano em abundância. E as
mãos dessa indústria pecuária seguem alegremente atadas às dos madeireiros que
limpam vastas áreas verdes na base da serra e do fogo, apenas para
substituí-las com pastos, levando as boiadas crescentes cada vez mais fundo ao
interior do país.
O
Brasil não um espectador distante da mudança global no clima. É agente, e pelo
lado negativo. Um país que tem de tudo para ser um campeão da ecologia, biodiversidade,
e um líder no mundo no uso de energia renovável, é na verdade um dos maiores
vilões da crise de aquecimento global.
E
tudo isso porque nossas elites intelectuais, na sua maior parte, estão
divididas numa guerra ideológica fabricada entre uma esquerda centrista falida
e uma direita ultra-liberal sedenta de mais lucros desimpedidos para uma
minoria abastada. Não percebem que o problema do aquecimento global não é uma
problema de super potências. É um problema nosso. A bancada empresarial, que
acoberta as emissões de gases poluentes, é a terceira maior do país, com 208
deputados que passam dia e noite pensando em projetos de lei que barrem a
fiscalização ambiental, a instauração de melhores práticas e exigências de
adequação a standards internacionais. A bancada do agronegócio é a quarta
maior, com 207 deputados.
A
nossa responsabilidade, mais do que doar a instituições que protegem os
animais, que reciclar nosso lixo, que tomar banhos mais curtos, é de pressionar
nossos governantes, para que eles atendam aos nossos anseios, não aos anseios
de seus bolsos e das contas bancárias de seus aliados. A nossa responsabilidade
é de levar ao poder homens e mulheres comprometidos com o futuro do nosso país
e do mundo. Nós, brasileiros, podemos fazer muito mais pelo futuro da
humanidade do que a maioria das pessoas. Mas, para tanto, temos que continuar a
lutar contra o poder bestificante dos dados.
Vou
dar um exemplo: 1500 cientistas dizem que o mundo vai acabar. Manchete alarmante.
Merece minha atenção. Será? Qual a proporção total de todos os cientistas do
mundo esse número representa? Mais de 10%? Menos de 1 %? Menos de 0,01%? Será
que são cientistas políticos? Físicos? Biomédicos? A especialidade deles é
relevante para a opinião que chega até mim? O número sozinho, não me diz nada.
É só sensacionalismo. Melhor teria sido dizer que “Cientistas afirmam que
atividades nas quais o Brasil é líder mundial estão pondo em risco a maioria
das espécies animais do planeta”. Ou que o “Brasil pode fazer muito para
reverter o quadro de aquecimento global”. Ou ainda que o pais tem que buscar
uma saída para os seus debates mais embolorados, como segurança pública e
corrupção, para começar a focar numa pauta ecológica e de preservação. O quê
decidimos falar tem muito impacto na abrangência da nossa mensagem e na nossa
capacidade de alcançar um número satisfatório de pessoas.

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