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Vidas Negras - Como o discurso conservador mata de novo as minorias

O ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani deu uma entrevista à rede de televisão CBS em 2016 dizendo que o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) era inerentemente racista. Para ele, deveria ser óbvio que todas as vidas, de todas as etnias, são importantes. Disse também que o erro estava em focar e se concentrar em uma fração menor que um por cento de um por cento de todas as mortes que ocorrem no Estados Unidos, e que isso levava a violência contra policiais. Se tivesse dito que forças progressistas (nos Estado Unidos chamadas comumente de “liberais”) buscam politizar mortes para conseguir vantagens, teríamos um discurso conservador bem típico do momento atual.
Marielle Franco (foto: Mídia Ninja)

E não apenas do momento nos EUA, mas no mundo como um todo. Já é mais do que notório que o mundo globalizado se comunica de forma globalizada. Então arquétipos, estratégias, modos e macetes de mídia se alastram como Starbucks por uma metrópole latino-americana pretensiosa. E o discurso conservador flutua nessa onda e re-interpreta casos como o de Marielle Franco. A vereadora, como muitos negros no Estados Unidos, morreu e se tornou, para alguns, um símbolo de brutalidade do Estado, embora no caso dela ainda não seja claro se há efetivamente envolvimento de policiais ou militares, apenas indícios e suspeitas. O que inspira a comparação é a reação. Para quem discorda dessa narrativa, resta um tipo de contra-ataque midiático. E esse contra-ataque é tão formulaico, tão sequencialmente previsível, que podemos traçar os paralelos sem qualquer esforço.
O primeiro passo é desqualificar qualquer comoção como ato político. É importante galvanizar audiências de que qualquer chamado à ação, à revolta, à emoção é apelativo, é vitimização, é uma busca por um privilégio incomum, quase uma esmola social, um “coitadismo” e uma tentativa de manipulação. Que as forças de defesa dos direitos são, na verdade, forças de desordem, que buscam enfraquecer a segurança do Estado desacreditando as forças da lei e ordem. Na verdade, essa parte do discurso contém um racismo velado tão forte que torna irônica a próxima parada na sequência de desmonte da narrativa de defesa das minorias.
Próximo passo na lista é desacreditar o discurso simbólico com retórica reversa. Você acusa as pessoas que geralmente estão na posição de apontar o racismo na sociedade de estarem sendo racistas, por dar mais importância à morte de uma pessoa do quê de outra simplesmente por causa da raça do morto. Essa demonstração de hipocrisia é simplória, porém eficiente. O argumento é poderoso entre uma audiência que não reconhece a questão: que o negro morre desproporcionalmente mais do que outras raças nas mãos de agentes do Estado. Aliás, negros morrem violentamente em maior número do que brancos de qualquer forma, e que a morte do negro é normalizada na mídia. Não existe narrativa de tragédia, mas sim uma narrativa que inclui ideias de quase inevitabilidade estatística, onde o negro é sempre culpado por seu próprio fim.
Aí as coisas começam a ficar complicadas, pois o próximo passo exige mais do que ginástica linguística e discursiva, exige distorção da realidade. A vítima tem que se tornar construtor e ator do seu próprio fim. Eric Garner, Michael Brown, Trayvon Martin, Philando Castile, todos foram caracterizados na mídia como criminosos de carreira, problemáticos, até mesmo idiotas, cujas ações impensadas arquitetaram as situações nas quais eles foram mortos. Não obstante quem de fato puxou os gatilhos. E não obstante o fato de que as mortes dessas pessoas ocorreram antes que seus históricos fossem checados, ou em momentos em que eles não ofereciam perigo a ninguém, e em momentos em que o preconceito de pessoas armadas foi determinante ao desfecho das situações. E aí depois minimiza-se a questão, apontando-a como um factóide, uma mera curiosidade estatística como Rudy Giuliani fez em sua entrevista. Mas as coisas não são bem assim.
O mais simples é desmistificar os números do ex-prefeito, já que as mortes de negros pela polícia não são 1% de 1% de nada. Elas representam mais de 22% das mortes causadas por policiais (desproporcional com os 12% de negros que compõem a sociedade norte-americana) 1,3% de todos os assassinatos cometidos nos Estados Unidos. Quando se inventa um fato, sempre há rastros da verdade.
No caso de Marielle Franco a reação “queimou a largada”, de certa forma, quando decidiu que a forma de culpabilizar a vereadora por sua própria morte era apresentá-la como defensora dos direitos humanos. Esse discurso só ganhou apoio dos mais raivosos defensores da ideologia “bandido bom é bandido morto / direitos humanos para humanos direitos”, no entanto, e abriu brecha para que aqueles que defendem Marielle exponham o fato de que ela também lutava pelos direitos das famílias de policiais mortos e, obviamente para uma maioria da população, que lutar por direitos humanos não é demérito para ninguém. A segunda investida contra a sua reputação permitiu a adesão de mais pessoas no entanto, quando circulou na internet boatos de que Marielle tinha sido mãe solteira aos 16 anos (explorando o estigma social), que tinha sido casada com Marcinho VP, famoso traficante carioca (imortalizado no livro Abusado de Caco Barcelos) e que tinha sido eleita para defender os interesses do Comando Vermelho e outras facções criminosas da região da Maré, sua comunidade. Melhor ainda, partiu de políticos e até de uma desembargadora, pessoas com capital social em muitos círculos de classe média. Mesmo tendo tudo isso sido facilmente desmentido, o estrago foi feito.
Por fim, mortes semelhantes são apresentadas juntamente com a pergunta “por que essas vidas não são igualmente valorizadas”. No caso do BLM, geralmente se comparam mortes de policiais. No caso de Marielle, surgem vários exemplos, incluindo o próprio motorista dela, Anderson Gomes, e depois casos como o de uma médica morta na Linha Vermelha. A resposta para a pergunta é complexa, mas óbvia. As mortes, todas trágicas e sentidas, não contém a mesma mensagem. Anderson, apesar de não ser político, foi vítima colateral de um atentado à vereadora. A médica Gisele Palhares Gouvêa tem mais complicações. A médica é facilmente identificável com uma audiência de classe média. Branca, rica, vítima de dois disparos durante assalto, sua morte fala com força aos medos mais basais de seus pares. Medo da criminalidade, medo do pobre negro, medo do outro. Quando ela morre, nenhum estardalhaço é grande o suficiente, pois é como se a audiência morresse junto com ela, tão grande é a identificação. Mas quando a morte é de Marielle, ela É o outro. Mais, morreu quem defende esse outro, que me ameaça com sua mera existência. Ou essa é a imagem vendida a essa classe média, muito diferente da narrativa original, da morte de uma mulher que batalhava pelos direitos de comunidades sem recursos e lutava contra a violência policial, que foi executada com oito tiros, voltando de evento político.
Tão impressionante quanto as similaridades entre o caso de Marielle e casos que incitam ações do Black Lives Matter é a velocidade com a qual o discurso se desenvolveu para descaracterizar a vereadora e aqueles que pediam ação da Justiça. Talvez pudéssemos falar também do discurso que busca torná-la mártir de uma causa, que também é falho. Mas, enquanto existe uma série de suposições que precisam ser confirmadas para que o discurso do heroísmo e da brutalidade do Estado possa ser confirmado, é impressionante como o lado contrário da discussão recorre rapidamente à calúnia, à mentira e à fabricação de dados, eventos, espantalhos e falsas equivalências. Esse mesmo lado que, quando debate cotas raciais, racismo, restituições pela tragédia da escravidão gosta de lembrar rapidamente que não se pode tratar a questão racial brasileira da mesma forma que a norte-americana e que esses conceitos são uma tentativa de distorção da realidade e inserção de um elemento estrangeiro à uma questão com particularidades locais, age com igual velocidade para traduzir estratégias de desinformação criadas por conservadores nos EUA e busca manter um status quo social no qual se criminaliza o negro, o defensor dos direitos humanos, o favelado, a mulher mãe solteira e se exonera aqueles que cometem violência contra eles.

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