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Eleição de 2018 será maratona de obstáculos para jornalistas

Manipulação, número de candidatos e mercado complicam cobertura de momento crucial do país


“Agora nós vamos para o Brasil,” disse um executivo, logo depois de afirmar que sua empresa usa esquemas de propina, chantagem e divulgação de notícias falsas para manipular eleições. Pego fazendo admissões comprometedoras por uma equipe de jornalistas britânicos do Channel 4 News disfarçada de investidores do Sri Lanka, ele representava a empresa Cambridge Analytica, que está envolvida num escândalo mundial envolvendo o “roubo” de informações de usuários do Facebook e o uso indevido desses dados para influenciar as campanhas que elegeram Donald Trump nos Estados Unidos e promoveram o Brexit no Reino Unido.

Fake news, troll farms, bots, data mining e data brokerage, são novas preocupações numa eleição que já seria uma das mais complexas da história do Brasil. As regras eleitorais de propaganda política não conseguem acompanhar a tecnologia a serviço da manipulação de resultados. A corrida presidencial terá o maior número de candidatos desde 1989, com propostas e intenções distintas. E dois desses candidatos são figuras das mais polêmicas que já se candidataram à presidência, e um deles se posiciona dentro de uma tendência mundial de extrema direita. Essa é a dimensão do nó a ser desatado pela mídia jornalística, em plena crise de confiança com sua audiência, em meio a um período de transição de formato, linguagem e incerteza econômica.

O jornalismo encontra dificuldade em gerar renda com a produção de conteúdo para a internet, um meio que revolucionou a forma como o produto jornalístico é consumido, mas continua a deixar a indústria perplexa. Os últimos anos foram marcados por um excesso de concorrência, gastando muito dinheiro com inovações para se destacar da opinião dos curiosos, atraindo muito dinheiro com conteúdo de qualidade e assistindo esse investimento indo quase que totalmente para o bolso de empresas como Google e Facebook. Esse processo desgastante deixou a imprensa tradicional vulnerável a ataques de aproveitadores que querem igualá-la a empresas panfletárias que tem inundado as redes com mensagens políticas tendenciosas e inverdades.

Esse conteúdo, agora mundialmente chamado de fake news, é a principal preocupação no cenário mundial. Pessoas, empresas e até mesmo países usam essa tática para influenciar resultados e o jornalismo acaba tendo sua reputação enlameada no processo, já que o conteúdo vem disfarçado por uma aparência jornalística. Novos formatos de slow journalism, checagem de informações e reportagens contextualizadas, explicativas, interpretativas e que buscam o equilíbrio vão surgindo para amortizar os efeitos desse fenômeno.

Mas a legislação não ajuda. A busca por isonomia limita a produção jornalística por equipará-la à propaganda política. Além disso, não limita o que chama de expressão individual e efetivamente libera campanha feita através de “mensagens eletrônicas enviadas consensualmente por pessoa natural, de forma privada ou em grupos restritos de participantes”, mesmo se estudos qualificados apontem que a maioria das fake news políticas são disseminadas exatamente dessa forma, em grupos fechados de aplicativos de mensagens eletrônicas como o Whatsapp.

No centro dessa tempestade estão as candidaturas do ex-presidente Lula e Jair Bolsonaro. O ex-presidente segue preso e, ainda assim, com a maior parte das intenções de voto. Seguido em segundo lugar por Bolsonaro, representante brasileiro da extrema direita que briga para chegar ao poder em todo o mundo. Ainda estão na briga perenes presidenciáveis Marina Silva, Geraldo Alckmin e Ciro Gomes, além dos novatos Henrique Meirelles, Joaquim Barbosa e uma dúzia de outros. Cada qual com suas propostas e posicionamentos.
Navegar 2018, com todas as armadilhas no caminho, será um desafio que testará a capacidade do jornalismo de servir à população num dos momentos mais cruciais da história democrática do país. Mas o principal será recobrar a confiança do público naqueles que querem informá-lo.

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