Pular para o conteúdo principal

Radicalização nas Eleições de 2018 e A Nova Era dos Extremos


Radicalização é uma questão política e econômica mundial. O centro ideológico e político, a social-democracia, os setores que buscam um mercado com economia vibrante ao mesmo tempo que os indivíduos são valorizados e as minorias são protegidas, vai sendo abandonado. Pior ainda, começa a ser visto pelos extremos como parte do extremo oposto, ou como comunistas ou como neo-con/neoliberais. Do fenômeno do alt-right à explosão do terrorismo internacional após a Guerra do Iraque, dos movimentos neo-nazistas europeus às experiências radicais de renda básica universal na Finlândia e a disposição praticamente ilimitada do governo canadense em receber imigrantes, o cenário mundial parece ser composto de forças opostas, cujo equilíbrio precário é mantido apenas pelas tremendas pressões colocadas de lado a lado. 



      No Brasil, a questão se torna ainda mais complexa pela proximidade da eleição, e eventos recentes exacerbam o problema. Externamente, eleições de figuras como Donald Trump nos Estados Unidos, Nicolás Maduro na Venezuela e a ascensão de movimentos extremistas por todo o mundo alimentam um ideário que inunda a internet, e o Brasil não consegue se isolar totalmente. Movimentos internos como o #LulaLivre e os que buscam levar ao poder o deputado Jair Bolsonaro polarizam o debate público, mas com características tipicamente brasileiras. Muito mais do que as propostas e questões, como foi o caso em muitas eleições pregressas, os candidatos enquanto pessoas são o cerne dos debates. Em meio à atual convulsão social e econômica, talvez isso já não seja o suficiente. As constantes crises, a cobertura das investigações e processos da Lava Jato, as informações e percepções sobre a recuperação da economia permitem que movimentos como os da greve dos caminhoneiros não apenas paralisem o país, mas sejam cooptados por grupos políticos com pautas completamente adversas aos interesses originais das manifestações. Em menos de uma semana, uma greve por melhorias nas condições de uma categoria foi praticamente sequestrada por pessoas interessadas em pedir por um novo golpe como o de 1964, que depôs João Goulart.



   
Esse exemplo recente, a paralisação nacional de caminhoneiros e a escassez de comida e combustível que pressionou a população e o governo como nenhum protesto fez até agora, é perfeito por várias razões. Uma reivindicação clara de uma classe trabalhista (neste caso um limite aos preços do combustível, pedágios e um preço mínimo para o frete, sem causar uma reoneração de impostos sobre as folhas de pagamento das empresas transportadoras), que também se misturou com causas patronais, levantando suspeitas de um locaute ilegal, levou a um drama nacional que durou (ou dura; no Porto de Santos, os caminhões continuam parados) 11 dias. Fora das cenas extraídas direto de filmes de Mad Max (pela loucura) e de quadrinhos do Tio Patinhas (pela avarice quase inimaginável) testemunhadas em todos os centros urbanos do Brasil, nas estradas o mundo tinha outra aparência. Próximas ao bloqueio, comunidades inteiras peregrinaram pelo asfalto para aderir à greve, mas levando uma pauta própria: A intervenção militar. 

      A mensagem era clara. Pintada nas pistas para ser vista pelos helicópteros, estampada em camisetas, pôsteres, faixas e placas, gritada em marchas e linhas de piquete. Intervenção. Intervenção Já. E uma mistura de nomes e palavras repetidas a exaustão. “Cleptocracia”, “corrupção”, “comunismo”, “governo”, “povo”, “FFAA”, “Mourão”, “Villas Boas”, “Bolsonaro”, “Temer”, num grande teatro de heróis e vilões no palco de uma nação mantida refém, assistindo em confusão, adoração e horror ao espetáculo.

      A mensagem veio de fora do movimento, das cidades e até das igrejas próximas dos bloqueios rodoviários montados pelos grevistas, segundo relatos dados a veículos como Veja, Isto É, El País, Carta Capital e BBC Brasil, mas os caminhoneiros foram rápidos para abraçá-la. Não exige muita imaginação para ver que esses homens, numa profissão lendariamente solitária, recebendo atenção nacional e apoio local, veriam com simpatia qualquer pauta que essa nova massa de simpatizantes trouxesse a eles. Também é impossível ignorar que entre eles, provavelmente, já existiam apoiadores da ideia da intervenção ou partidários de Jair Bolsonaro, principal proponente da ideia entre os políticos considerados mainstream para essa eleição. Mais que isso, Bolsonaro lidera pesquisas na ausência de um encarcerado Lula. Então não surpreende, mesmo quando choca, manifestações de apoio às Forças Armadas tão extremas quanto a de um grupo de caminhoneiros que marchou até um quartel próximo ao bloqueio que estavam desfazendo, dispostos a entregar o comando da greve ao exército, e se deparando com soldados perplexos. Tão perplexos quanto a sociedade feita audiência cativa do espetáculo de centenas de pessoas se ajoelhando em estradas pedindo auxílio imediato dos militares.

      Mas, da mesma forma que o Auto da Barca do Inferno não é sobre uma visita ao submundo, e da mesma forma Vingadores: Guerra Infinita não é sobre super-heróis lutando contra alienígenas, esse texto não é sobre a greve. Nem a greve é realmente sobre a greve ou, pelo menos, deixou de ser quando foi infiltrada por elementos políticos alheios a ela. A questão é “Como um grupo de pessoas, numa associação mais ou menos distante e frágil, pôde ser radicalizada tão rapidamente?” E quem luta contra qualquer movimento extremista lida com essa pergunta diariamente.

      Alguns pontos são comuns. Em primeiro lugar, grupos extremistas, por mais raivosos e desvairados que eles possam parecer para quem está do lado de fora ou no extremo oposto da política, são amigáveis, includentes, abertos e cheios de pessoas muito simpáticas e carismáticas. Eles estão repletos de pessoas comuns, com quem qualquer um poderia se identificar. E estão preparados para virar para quem os procura com uma mente curiosa um espelho distorcido. Esse espelho faz que quem se olha nele veja uma versão de si bela e perfeita, mas parada na frente de um mundo sombrio e horrível. Movimentos extremistas enaltecem os aspectos das pessoas que são interessantes e os identificam como membros desses grupos e convence indivíduos que são especiais por esses aspectos, e que determinados grupos são inferiores, uma ameaça e merecedores de serem destruídos por alguma razão que os torna diametralmente opostos ao indivíduo. E isso se dá comumente em redes sociais. Atraídos por memes e interações divertidas na internet, pessoas vão sendo levadas para dentro de movimentos, instigadas a transformar piadas em ataques virtuais e ataques virtuais em ameaças na vida real e, em alguns casos, até a violência física de fato. Tudo isso normalizado pela experiência positiva e comunitária do grupo que passa a abraçar, respaldar e proteger o indivíduo para fidelizá-lo.

      A seguir, o maniqueísmo criado entre o grupo e seus opositores é explorado para alienar o indivíduo de sua comunidade, família e até mesmo de sua própria identidade. A crítica excessiva do outro é, na verdade, um esforço para impedir que o indivíduo analise a si próprio. Desprovido de autocrítica, um grupo extremista pode levar seus membros a todo tipo de ato ou posicionamento, pois o desconforto da oposição, o confronto com o outro, contém em si próprio um bem maior. É o caso de movimentos como o da Igreja Batista de Westboro, que vai a eventos públicos e privados (como funerais) “informar” os presentes que eles vão morrer e queimar no fogo do inferno por permitir que existam homossexuais e abortos e muçulmanos no mundo. Ou apoiadores de Donald Trump, que riem das mentiras escandalosas e atos incongruentes do presidente norte-americano, pois sabem que essas coisas vão irritar os progressistas. Ou como eleitores de João Dória, que aplaudiram algumas de suas medidas, mesmo as mais impopulares, simplesmente pois elas deixariam furiosos os eleitores de Fernando Haddad. 


      Da mesma forma, a criação de mitos de origem e identidade criam uma união baseada em pureza que começa a separar grupos de outros semelhantes, porém menos extremos, que passarão a ser atacados como representando uma perversão da identidade, ideologia, raça ou religião do grupo extremista. É o que faz o Estado Islâmico que, apesar dos medos do Oeste, conta entre as suas vítimas 80% de muçulmanos. E é o que grupos que apoiam a intervenção das forças armadas estão fazendo agora, acusando o General Eduardo Villas Boas de ser comunista por ele dizer ser “lamentável” o suposto clamor por uma nova ditadura militar. Com essa estratégia, cria-se a ilusão de que os grupos são detentores e donos das pautas e ideais pelo que lutam. E que precisam defender essa propriedade do “infiéis”.



      Assim, se estabelece uma atmosfera falaciosa onde o grupo, a identidade ou ideologia estão sob constante ataque. Isso alimenta o medo, o ódio e a vaidade dos membros, estreitando ainda mais os laços e criando uma motivação individual muito forte de se manter leal. As forças que fomentam apoio à candidatura do ex-presidente Lula, por vezes, lançam mão dessa tática, pintando seus opositores como monstros que querem manter um homem santo preso sem provas, uma narrativa que é, no mínimo, problemática. E, por sua vez, movimentos como o MBL fazem o mesmo na sua campanha de ódio contra o Partido dos Trabalhadores. Nos Estados Unidos, movimentos como o Black Lives Matter, por seu discurso de defesa das minorias étnicas contra violência policial, já levou indiretamente a ações violentas contra forças policiais. Até mesmo ataques a jornalistas, especialmente de grandes redes como a Globo, CNN e Fox News, alimentam e são alimentadas por essa atmosfera. E também surgem narrativas de abandono dos grupos por parte das autoridades, que os poderes e os poderosos não fazem nada pela causa defendida. Isso se encaixa como uma luva na greve dos caminhoneiros, onde um governo desinteressado aparece como vilão, negando condições dignas de trabalho a uma categoria.



     
O jornal New York Times cunhou o conceito da “Era do Comportamento”. Ela marca o fim da era pregressa, onde os indivíduos se associavam ou por nacionalidade, etnia ou por ocupação. A greve faz parte dessa era pregressa. Mas a adesão de movimentos que pedem a volta da ditadura militar catapultam-na para a nova era. A Era do Comportamento sinaliza as associações entre as pessoas pelos interesses e pautas, que são supranacionais, carregadas pela internet de país em país, cooptando simpatizantes sem muito se importar com quem esse simpatizante seja, que bandeira ele esteja saudando, ou onde ele resida. E os extremistas de diversas causas, principalmente os autoritários e violentos, parecem ser aqueles que mais tomam proveito dessa nova era. Porque esses indivíduos que antes viviam às margens da sociedade, isolados nas suas crenças vistas como bizarras pela maioria, podem encontrar seus pares online, compartilhar experiências e ideias, e voltar para seu canto do mundo se sentindo parte de uma comunidade que merece ser representada no discurso público, que é numerosa e, portanto, válida.


      Por fim, movimentos radicalizam pessoas montando uma ideia de aventura e heroísmo do indivíduo, que está indo contra as morais sociais e forças opositoras incomensuráveis para criar uma utopia para o seu grupo. Essa ilusão de aventura já vem pré-montada dentro do próprio sistema de promoção das forças armadas no Brasil, o que torna o trabalho dos movimentos que pedem intervenção ainda mais fácil. Igualmente, um fator facilitador é a possibilidade avassaladora de posicionar a política tradicional no Brasil como vilã terrível e sanguessuga do povo e da máquina estatal. Junte-se a isso um eterno mito de grandeza da nação que o Brasil alimenta desde o Primeiro Reinado e que formalizou com Gilberto Freyre e outros intelectuais do século XX, e temos um panorama perfeito para a proliferação de extremados de direita entorpecidos pelo sonho de uma ditadura que venha livrar o país das ameaças vermelhas. Tanto quanto os jihadistas o tem num sonho de um mundo árabe unido sob um governo islâmico fundamentalista. 

      Tudo isso está presente nas teorias de especialistas em radicalização, como Erin Marie Saltman, Maajid Nawaz, Diane Benscoter, Theo Wilson, Deeya Khan e Meghan Phelps-Roper, assim como em matérias da escritora e jornalista Afua Hirsch. E muitos deles também concordam em como se pode combater esse radicalismo. Movimentos extremistas podem ser desmontados confrontando os indivíduos com compaixão, obrigando-os a se auto-examinarem e a criticarem objetivamente os grupos de que fazem parte. É preciso convencê-los a rejeitar os mitos de origem e identidade criados para aprisioná-los numa ideologia fantasiosa e que fere o interesse comum da maioria. É necessário questioná-los quanto a suas motivações para odiar. É preciso engajar. E isso é o maior desafio no nosso mundo hoje. Porque, se a bolha da internet amplifica as vozes que concordam conosco, sendo uma força de unificação para forças radicais, ela isola os opostos e impede o diálogo casual entre pessoas que discordam e que tem visões de mundo radicalmente diferentes. Estando cientes disso, temos as ferramentas para nos imunizar do radicalismo e buscar trazer de volta ao debate comum as pessoas que percebemos terem sido radicalizadas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Redenção - Um Conto

                Nasci num domingo, às 11 da manhã, aparentemente para aproveitar o final de semana. Cheguei tarde, perdi a feijoada do sábado, a missa, e compliquei o almoço. Salvas as comemorações, não deixei muito espaço ou inspiração para o jantar. Já no dia seguinte, toca trabalhar, que a vida corre. Aquilo não me desceu bem. Ainda rumino as oportunidades perdidas por minha falta de pontualidade que já me premiaram com uma quantidade satisfatória de vexames.                 O aborrecimento final veio no aniversário de um querido amigo. Demorei tanto para chegar ao churrasco de celebração que quando liguei para avisar que estava à caminho, todos os amigos já estavam em suas respectivas casas. Passei a ansiosamente procurar uma oportunidade de redenção.              ...

PODCAST: Anti Intelectualismo entre alunos de Jornalismo

No Baixo Registro Podcast n°1 Continuando o assunto do post " Ética jornalística gera preconceitos entre alunos nos Estados Unidos" , conversamos com 3 professores de comunicação que atuam ou atuaram na área do Jornalismo para saber mais sobre o impacto no exercício da profissão da desconfiança da Academia e das práticas populistas. Serão 23 minutos bem gastos pra quem tem curiosidade sobre o tema.

Ética jornalística gera preconceitos entre alunos nos Estados Unidos

Jornalistas têm uma tendência populista enraizada na sua forma de pensar que dá apoio à cultura do anti intelectualismo. Esse é o resultado de uma pesquisa norte-americana, que tentou medir a aversão à opinião especializada e à educação acadêmica dentro das faculdades de comunicação dos Estados Unidos. Conduzida por cientistas de quatro universidades em 2017, a pesquisa aponta que existe uma confusão entre uma desconfiança, dita “saudável”, do poder e dos poderosos com a falta de confiança na opinião de autoridades e especialistas, ignorando se estes são isentos, independentes e autônomos de interesses. Michael McDevitt,da Universidade do Colorado, Perry Parks, da Universidade Estadual de Michigan, Jordan Stalker e Jesse Benn, da Universidade de Wisconsin-Madison, Kevin Lerner, da Faculdade Marist, e Taisik Hwang, da Universidade da Georgia, propuseram em seu trabalho, Anti Intelectualismo entre alunos dos EUA em jornalismo e comunicação de massa: uma perspectiva cultural, que 2072 ...