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Múltiplas Jornadas e a Jornada Até Aqui


Mulheres trabalham demais. O quê? Você já sabia? Claro que sabia! Cem porcento de chances que você seja uma mulher ou conheça uma muito bem. A questão é, poucas pessoas tem a real proporção do quanto elas trabalham, ou quanto mais do que os homens elas se esforçam, principalmente em países gigantescos e desiguais como o Brasil. Por exemplo, você olhou pra imagem acima e pensou que isso é bom, uma representação da força feminina, da sua capacidade de multitask? Muita gente responde que sim. Porém, cada vez que uma nova pesquisa sobre o assunto, ou sobre trabalho, ou sobre a divisão de tarefas numa família, ou sobre o tempo que passamos desempenhando nossas funções surge, descobrimos uma nova camada de obrigações que mulheres desempenham quase exclusivamente.

As manchetes que anunciam a entrada progressiva de mulheres no mercado de trabalho perderam sua novidade na década de 70, mas o assunto continua rendendo, porque a sociedade continua lançando bolas cheias de efeito para elas. Primeiro, descobrimos que as mulheres estavam assumindo novas responsabilidades fora do lar, mas não conseguiam abandonar as velhas responsabilidades do trabalho doméstico. Nós chamamos isso de jornada dupla. E chacoalhamos nossas cabeças e fizemos *tsc-tsc* com a boca e nós, homens, seguimos em frente, tentando lavar uma louça a mais de vez em quando, ou pegando as revistas espalhadas pela casa à noite, ou fazendo a cama nos finais de semana. 

Mas isso não ajudou em nada. Uma recente pesquisa do IBGE, o PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), mostrou que mulheres em idade de trabalho realizam afazeres domésticos em proporções consideravelmente maiores do que homens na mesma faixa etária (14-50+). E que as mulheres que têm um trabalho são a maioria dentre as que realizam afazeres domésticos nas suas próprias casas e nas casas de parentes. Indo ainda mais longe, o número de mulheres, e de mulheres que possuem ocupação fora do lar, que realizam afazeres domésticos continua crescendo, indo de 92,2% em 2016 para 94,5% em 2017. 

Não entendam mal. O número de homens que se envolvem em afazeres domésticos também se ampliou, mas as mulheres continuam a ser maioria e o gap não está diminuindo de forma significativa. Em 2016 75,5% dos homens com empregos participavam ativamente nos afazeres domésticos, enquanto em 2017 já eram 80,6%. Mas esses número escondem que as tarefas específicas ainda são altamente conexas com homens ou mulheres, dentre outras questões.
Quando entramos no século XXI, nos demos conta de que na verdade havia uma jornada TRIPLA. Como Sheryl Sandberg, COO do Facebook, aponta em suas palestras “se um homem e uma mulher que trabalham em período integral têm um filho juntos, a mulher faz o dobro das atividades domésticas que o homem faz e assume o triplo das responsabilidades com a criança”. Não só no cuidado de crianças, mulheres também assumem a maior parte dos cuidados com idosos e enfermos em suas casa e nas casas de parentes. 

Isso não é conversa fiada. Embora a fala de Sandberg seja um dado sobre a sociedade norte-americana, no Brasil, o PNAD mostra que mulheres que fazem tarefas domésticas e cuidam de pessoas gastam 20,9 horas por semana em média envolvidas com essas atividades, enquanto homens gastam apenas 10,8 horas por semana em média para os homens. E a principal faixa etária onde isso está acontecendo é entre os 25 e os 49 anos, a idade onde a maioria das pessoas constitui família e tem filhos. 

Então não é surpreendente que mais e mais pessoas estejam escolhendo não ter filhos. Em 2016, o PNAD revelou que o número de casais que não pretendem ter filhos saltou de 13,5% para 18,8% em 10 anos. Alarmantemente, numa pesquisa do IBGE sobre natalidade publicada neste mês de maio de 2018, descobrimos que só 19% dos casais querem ter filhos nos próximos dois anos. E esse número diminui conforme aumenta o poder aquisitivo. Aqui entram fatores complicantes de vários tipos.

Pais e mães em geral estão cada vez mais preocupados com passar tempo com seus filhos. E quanto mais pais se envolvem na criação dos filhos e nos afazeres domésticos, apesar da observação de que eles se tornam mais felizes e saudáveis feitas pelo sociólogo Michael Kimmel, mais eles certamente observarão que duas pessoas no atual mercado de trabalho, com trabalhos de período integral, não têm tempo para oferecer a atenção necessária à criação de uma criança. 

Se ambos estão no trabalho ao mesmo tempo, alguém (geralmente um parente, babá ou escola) estará encarregado de cuidar da criança por 8 horas. Se não, isso quer dizer que o revezamento garantirá que a criança passe mais tempo com pelo menos um dos pais, mas que os pais passarão muito menos tempo juntos e que a família raramente estará toda junta, colocando uma pressão desproporcional na vida cotidiana. Não é impossível, mas é uma fonte de stress com a qual poucos pais das gerações que nos precederam tinham que se preocupar. 

Há questões trabalhistas, relacionadas à flexibilização dos direitos de gestantes, mães e pais de recém nascidos. Enquanto alguns países como Alemanha e Dinamarca permitem que os pais passem cada vez mais tempo em casa com os bebês, no Brasil ainda é comum pensar que é natural mulheres ganharem menos que homens pois tiram licença maternidade, e que é importante pressionar principalmente as mulheres para retornarem o mais rápido possível ao trabalho. Dos homens, a expectativa é que, após uma semana do parto, seu envolvimento com a criança não vá além de um novo porta-retratos em sua mesa e a ocasional anedota sobre fraudas ou falta de sexo no casamento. 

A escritora e consultora Jessica Shortall fala em seu livro “Pump, Work, Repeat” (algo como “Bombeie leite materno, Trabalhe, Repita” em português), como governos repassam todos os custos e sacrifícios cada vez mais para os pais, julgando que ter filhos é uma “escolha individual”, sem levar em conta as consequências catastróficas para sociedade se essas escolhas individuais de repente se tornassem a de NÃO ter filhos. 

E essas considerações complexas não estão além da percepção dos principais impactados, já que o nível de envolvimento com afazeres domésticos e com cuidados a infantes e idosos aumenta no mesmo grau em que aumenta o nível de escolaridade das pessoas. Indivíduos com mais cultura e mais educação participam mais ativamente das tarefas não remuneradas do lar segundo o IBGE, e têm mais consciência e acesso aos dados sobre os sacrifícios envolvidos com essas escolhas.

Mas o quê nós nos recusamos a olhar é que o peso esmagador da maior parte das responsabilidades da criação de crianças e cuidado com idosos recai sobre as mulheres culturalmente, tradicionalmente e biologicamente de uma forma que estamos programados e programadas a aceitar. E a ignorar, mesmo quando é cruél, ilógica e injusta. Ignoramos as olheiras das mulheres quando elas chegam cedo, mesmo tendo passado a noite em claro. Exigimos performance mesmo quando elas ainda estão se recuperando de uma cirurgia de parto que, mesmo que comum, não é sem risco, sem complicação e sem sequelas. E cobramos alegria, amor, gratidão e estabilidade mesmo quando corpos passam por mudanças metabólicas e estruturais que pouquíssimos sequer conseguimos entender e em momentos em que, psicologicamente, uma maioria das mulheres está totalmente fragilizada. Sem oferecer condições sequer de igualdade, dizemos que mulheres que retornam ao mercado de trabalho após terem filhos são menos interessadas e ambiciosas. 

E aqui eu gostaria de introduzir a ideia de uma QUARTA jornada feminina porque, vejam, em 1983, no livro “The Managed Heart” (“O Coração Gerenciado”), a socióloga Arlie Hochschild apresentou a ideia de um trabalho emocional. É uma forma de atividade destinada ao bom funcionamento de relações profissionais e pessoais, que inclui cordialidade, positividade, poder de mediação, resolução de conflitos, capacidade de ouvir, socorrer, cuidar e consolar, mantendo em mente dados pessoais e datas importantes referentes a cada pessoas num ambiente de trabalho ou em casa. Claramente isso é um trabalho, porque eu fico cansado só de pensar em fazê-lo. 

Lembrar de todos os aniversários da família? Impossível pra mim, mas algo que minha vó fazia sem nem ter que olhar para o calendário e que a minha mãe passou a fazer depois que minha avó faleceu com uma facilidade quase sobrenatural. Não há nenhum conflito na minha família cuja resolução não seja acelerada pela participação, interferência ou concessão de uma mulher. Isso é realmente natural, uma predisposição genética ou educacional do sexo feminino? 

É esse pensamento que mantém certas funções atreladas quase que exclusivamente a mulheres. É o caso das professoras de crianças pequenas, babás, enfermeiras e cuidadoras, secretárias, comissárias de bordo, assistentes pessoais e muitos outros cargos onde essas características especiais são postas em destaque, mas onde a remuneração fica aquém de cargos tipicamente masculinos. 

Pior ainda, existe a teoria de que mulheres que não conseguem demonstrar essas características em suas funções, mesmo que estas sejam de comando, administração e de alta competitividade, pagam o preço recebendo em média menos que seus pares do sexo masculino.

Existe um caso famoso que exemplifica isso, num estudo da Harvard Business School, sobre uma mulher chamada Heidi Roizen. Ela é uma investidora que, após anos trabalhando numa empresa no Vale do Silício, usou seus contatos para ter vasto sucesso no mercado financeiro. O estudo preserva a história, os métodos e características da sua personagem principal, mas para metade dos pesquisados apresentados com o caso ele faz uma alteração básica: Ele muda o nome de Heidi para Howard. Perguntados, todos os pesquisados avaliam que Howard e Heidi são competentes. Mas enquanto todos os que analisaram o caso de Howard acham que ele é um ótimo sujeito, com quem gostariam de trabalhar e até de se relacionar em nível pessoal, os que analisaram o caso de Heidi acharam que ela foi egoísta, auto-promotora e interesseira e não gostariam de trabalhar com ela. 

Esse é o preço que mulheres pagam por não se conformar com as características estereotípicas de seu gênero, e a justificativa que muitos usariam para pagar menos a ela dentro de uma estrutura corporativa: Ela não está fazendo o seu trabalho emocional. A expectativa de que mulheres sejam mais emocionais, mais emotivas, mais antenadas às emoções de outras pessoas cria uma pressão desproporcional que tem impactos negativos na carreira e na saúde feminina e que é totalmente invisível.

Pra ser perfeitamente sincero, eu acho que já podemos falar até de uma QUINTA jornada de trabalho para mulheres que, como todas as minorias na modernidade, têm que estar permanentemente engajadas em trabalho ativista que promova igualdade de condições e oportunidades, aqui entre os sexos. Mas isso é uma conversa para o futuro, por mais próximo que este futuro possa ser.

O fato é que a igualdade de gêneros não é algo que pode ser protelado, mas que ainda é encarado com muita resistência por muitos homens e, por questões culturais, muitas mulheres também. Essas barreiras têm que ser quebradas, já que a igualdade é justa, é certa, e também é o melhor para os homens. 

Como Michael Kimmel aponta, homens em relações mais iguais não são só mais saudáveis e felizes, eles têm crianças mais saudáveis e felizes, vivem em economias mais saudáveis e felizes, têm casamentos mais saudáveis e felizes, têm mais chances de terem suas expectativas atendidas de sucesso e estilo de vida e fazem mais sexo. O quê mais eles podem pedir? Pedir que as mulheres tenham exatamente a mesma chance, sem ter que viver a vida de 5 indivíduos ao mesmo tempo.


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